Lições da pandemia 6: "Eu não tenho nada a ver com isso"
São 2.008.273 mortes no mundo e 208.246 no Brasil, e "le président" ainda tem coragem de dizer que não tem "nada a ver com isso". Por acaso ele mora nas Bahamas? Ou nas Ilhas Seicheles? O jornal está cheio de notícias contraditórias e aberrantes sobre quem disse o quê ou fez o quê. Em Manaus, falta oxigênio e o governo aumentou o imposto sobre a importação dos cilindros de oxigênio duas semanas antes da crise. O governo brasileiro deveria ser o primeiro a arregaçar as mangas num esforço hercúleo para combater a Covid-19 fazendo tudo o que fosse possível para que cada um tivesse o atendimento, a medicação e o oxigênio que merece. É uma pandemia. Não é o Cordão do Bola Preta.
Mas, não. As hordas políticas só pensam em quem vai suceder o Maia e o Alcolumbre, na Câmara e no Senado, que já tiveram Covid e saíram ilesos. A OMS alerta sobre Manaus: "É preciso aceitar responsabilidade por perda de controle". Mas não só em Manaus. Vamos fazer um ano do início das infecções e nada é levado a sério. Não há esforço para que os recursos sejam disponibilizados e principalmente nada foi feito para que já estivéssemos sendo vacinados. Ao contrário, deixaram o barco correr solto. Se não fosse o Butantan e a Fiocruz a se empenharem para obter a vacina, estaríamos piores ainda. Agora temos a vacina e não sabemos quando começa a vacinação, nem como.
Um homem na rua em Manaus carregando um cilindro de oxigênio, por conta própria, para salvar a vida de um parente, no hospital ou em casa, é uma cena assustadora. "Temos vacina, é urgente usá-la". E o que espera a Anvisa? Dia 6 de janeiro o Butantan conseguiu confirmar a eficácia da vacina na Áustria (onde celebravam o Dia de Reis). Dez dias se passaram e a burocracia atrasa o início da vacinação prometida para o dia 20 de janeiro. Onde? Quem? Como? Qual a logística para vacinar todo mundo?
Nos EUA, que começou a vacinar em dezembro, desistiram da fila de prioridades. É de quem primeiro chegar. O importante é que todos recebam a vacina, e não só os mais necessitados. Esses deveriam já ter sido vacinados há um mês. Inglaterra também já vacinou a Rainha. Biden já tomou a segunda dose. Estão um mês adiantados e nós aqui não temos nem vacina, nem seringa.
"Le président" acha que a culpa é do isolamento, do distanciamento social. Por seis meses, eu não fui contaminada, porque não saí de casa entre março e setembro de 2020. A ida à feira num sábado de manhã (mesmo de máscara e álcool gel) foi o suficiente para eu adoecer. Só fui me recuperar em dezembro. Aos poucos, depois de duas crises, consegui voltar à quase normalidade. Nada foi melhor do que sair do ano que passou. Mas o comportamento negativo do governo faz com que metade da população acredite que a pandemia "já passou". As praias, as ruas, os bares cheios mostram isso.
Os brasileiros (e o resto do mundo) estão se reinventando. Quem quer sobreviver está fazendo de tudo enquanto a vacina não chega. A situação agravou-se esta semana no Rio. "Das 33 regiões da capital, 28 estão com risco alto. Há sete dias, eram 18". Ou seja, o Rio de Janeiro está em estado de calamidade pública e as pessoas continuam a circular como se nada houvesse.
Ontem fui fazer uma ultrassonografia num hospital em Madureira. Parecia o INSS. Lotado. Todos de máscara, porque o hospital obriga. Mas distanciamento nenhum. Parecia a estação de trem de refugiados da Albânia. Uma colmeia humana.
Ainda bem que "le président" reconhece que "a situação é terrível", mas ele perdeu a chance de ser o salvador da pátria, por não ter demonstrado compaixão e dor pelas famílias que perderam seus parentes, e não ter aprofundado as prevenções necessárias e os cuidados com os que adoeceram. Ele deveria ter servido de exemplo. Ele fez tudo ao contrário, mostrando desdém, desrespeito e pouca importância pela doença que não parou de se espalhar. Uma vergonha.
Se a situação está "terrível", devemos isso a ele, que liberou geral, que achou que não precisava se prevenir. "Prevenir é melhor que remediar". Não contaram isso para ele quando era criança. A situação só não é mais lamentável, porque tem gente que está correndo atrás do prejuízo, que está trabalhando para que a vacina exista, que está fazendo de tudo para que a vacinação comece o mais cedo possível, e passa seus dias cuidando de um número de pacientes cada vez maior.
Temos que fazer a nossa parte, porque a parte de quem deveria ter feito o necessário não aconteceu. "O mau exemplo frutifica". Esse é outro ditado que aprendi em criança e que "le président" também não aprendeu.
Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 2021 - 10h09

BOM texto... É uma LIÇÃO!
ResponderExcluirparabéns ótimo texto
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