Lições da pandemia 4: Ser ou não ser - quem é você

Começamos o ano como outro qualquer. Ao terceiro mês do primeiro semestre, descobrimos que tínhamos sido roubados. Perdemos a liberdade de ir e vir, de nos reunir, de viajar, de sair e passear. Esperamos, inutilmente, que houvesse uma saída, uma explicação, uma mudança de cenário. 

Em agosto, descobrimos que não. Chegamos a 100 mil mortes sem que nada mudasse. Passou o primeiro semestre sem podermos sair de casa, porque as mortes continuavam aumentando. E daí aconteceu o inexplicável. 

Não sei em que momento os cariocas decretaram o fim da quarentena, do confinamento e da pandemia. Para eles, não tinha dia ruim. Foram todos para as praias, os bares e encheram as ruas. Quem continuava em casa não entendeu. Mas eles diziam que tinham que voltar à vida normal. Tá bom. De máscara. 

Só que não. Chegamos ao fim do ano com quase 200 mil mortos. Em quatro meses, quase dobrou. Vamos começar o ano de 2021 com esse número nos dando as boas-vindas. Não esqueço que outras doenças também matam. Não é só a Covid. Mas até a Aids tem remédio. Os cientistas continuam procurando a cura para um sem número de doenças. A Covid não poderia passar impune. 

Eu adoeci como 82.282.392 pessoas e me recuperei como 80.485.624 delas até hoje, mas 1.796.768 pessoas ficaram no caminho. Não viram o ano terminar. A Covid-19 já teve tempo de criar uma nova cepa e de contaminar mais 444.437 pacientes de ontem para hoje e voltar a crescer em vários países, incluindo o Brasil. 

Como disse a chanceler alemã Angela Merkel, isso é inadmissível. Algo precisa ser feito. E tudo que se pode fazer agora é tomar a vacina. Mesmo que se revoltem contra ela, como fez a população há 100 anos, quando Oswaldo Cruz começou a debelar a febre amarela, a matar mosquitos e caçar ratos. Seu trabalho mereceu um prêmio de reconhecimento mundial. Mas hoje não temos mais um Oswaldo Cruz. Temos um Butantã, temos a Fiocruz, temos laboratórios na China, em Oxford e até na Rússia para fabricar a melhor vacina. Os cientistas tiveram que correr contra o tempo para fazer a sua. 

O mundo mudou. Nunca mais seremos os mesmos. Adquirimos novos hábitos. Depois da vacina, voltaremos a nos ver. Mas estaremos diferentes. Ninguém passa pela Covid impunemente. Só quem realmente não teve sintomas. Eu não sou a mesma. E muitos não se reconhecem mais. Mesmo que o ser humano não melhore em seu cerne, temos uma nova humanidade. Os melhores e os piores se encontram. Agora sabemos quem é quem. Como a Covid mudou você? 

Rio de Janeiro, 30 de dezembro de 2020 (Lua Cheia) - 18h18



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