Lições da pandemia 3: 2020, o ano em que ficamos em casa
Quando 2020 começou, eu queria que tudo fosse como no oculista: 20/20. Cheguei a desejar isso para os amigos de Facebook. Em março, tudo descambou e não podíamos mais sair de casa. Todos os planos foram adiados e passamos a curtir uma quarentena. Quarenta dias depois, vimos que ela teria de continuar por mais 40 dias. Em junho, minha prima me disse que eu saísse de casa, e não tivesse medo. Foi o que todo mundo fez. O confinamento estava cancelado. Todos voltaram às praias e aos bares, às muretas da Urca, e a vida seguiu como se não tivesse amanhã. Eu fiquei seis meses confinada. Saía uma vez só por mês para pintar o cabelo e só. Os cabeleireiros estavam fechados, então a cabeleireira atendia uma a uma as suas clientes para não perder a freguesia. Em setembro, achando que já poderia circular um pouco, fui à feira e lá a Covid me pegou e tudo virou de cabeça pra baixo.
Doente não tem bom senso. Perde todas as estribeiras. Não fui internada, mas fiquei um bocado zangada por ter contraído o vírus. Aquilo doeu muito. Não tive febre nem tosse, o contágio tinha sido mínimo, mas mesmo assim me derrubou. O médico mandou fazer tomografia, não viu nada. Eu não tinha sintomas suficientes para ele me medicar. Voltei para casa achando que já estava boa. Não estava. Um mês depois, o vírus contra-atacou. Com pouca febre e tosse, só que com uma dor contínua que só cedeu depois que tomei um antiviral por cinco dias no final de outubro. Novembro foi um mês de uma gripe que não passava.
Foram três meses em que tomei grandes decisões: eu não ia mais pintar o cabelo, não ia mais ao cabeleireiro em Copacabana, não ia mais me importar com coisas corriqueiras por me tomarem um tempo essencial. Tudo passou a demandar um esforço muito grande que eu não poderia dispender. E chegamos ao final do ano de cabeça para baixo. Onde está o mundo que estava aqui? O vírus levou.
Durante os primeiros seis meses, perdemos a noção do tempo por não sair mais de casa. Os detalhes começaram a fazer toda a diferença. E a uma dor se somam outras. Os amigos começaram a morrer. Logo nos primeiros meses, nos deparamos com uma perda irrecuperável. Até setembro, víamos a Covid avançar por onde não sabíamos que ela estava trafegando.
Eu percebi que estava enlouquecendo quando comecei a esperar chegar a terça-feira que já tinha passado quando já era quinta. Foi a primeira vez que achei que o tempo iria começar a andar para trás. Cada dia passou a ser outro. Foi daí que inventaram um termo novo nos dicionários ingleses chamado Blursday, ou seja, qualquer dia da semana que não se consegue identificar qual é.
Não podemos mais planejar nada, porque não sabemos nem se estaremos vivos até lá. É a mesma sensação que deve causar a guerra, qualquer que seja. Não sabemos quando acaba, e não sabemos se chegaremos ao final dela. É uma guerra bacteriológica. Proposital ou não, ninguém terá a coragem de revelar. Os culpados são os verdadeiros impunes. Os inocentes pagam por eles.
Tivemos que reinventar o modo de viver, pelas janelas, pelos vídeos, pelas lives, pelas videoconferências, tudo para continuar conversando. E o telefone, o velho telefone, voltou a funcionar. Não podemos visitar, mas podemos fazer "visitas telefônicas", como diz minha ex-professora de Literatura, Luci Ramos Ferreira, que me ensinou todo o Machado de Assis que sei, que resultou no meu livro "Capitu", que lancei em 2014, para quem liguei neste fim de semana (há pessoas com quem não podemos deixar de falar enquanto temos a oportunidade. Ela é uma delas).
2020, o ano em que ficamos em casa. O ano em que muitos amigos morreram. O ano em que tivemos que nos reinventar para continuar vivendo, produzindo e trabalhando. O ano em que passamos a comprar tudo pela internet. Os Correios, os couriers, as entregadoras e as transportadoras entraram em parafuso. Só quem não se mexeu saiu perdendo. O ano em que todas as gavetas se abriram soltando originais guardados, ou passaram a escrever o livro que nunca tinham tempo de fazer. O ano em que mudamos o foco, o enfoque, o toque, a sacada. Os ladrões cibernéticos avançaram também. Cada vez mais cuidado com eles.
O mundo encolheu. A chanceler alemã fala de problemas que nos atingem. O presidente americano eleito toma vacina e queremos que seja o nosso. Seja na Rússia, no México, no Japão, na China, na Itália, na Espanha, na Inglaterra, todos tornaram-se nossos vizinhos. Acordamos com notícias dos quatro cantos do mundo. Pranteamos todos os artistas que morreram como moscas. E 1.722.307 mortos até hoje desde o início da pandemia, 188.259 pessoas no Brasil. Caminhamos a passos largos para uma transformação. Muita coisa já mudou. Outras continuarão mudando. E, como é Natal, cabe a pergunta de Machado: "Mudaria o Natal? Ou mudei eu?"
Thereza Christina Rocque da Motta
Rio de Janeiro, 23 de dezembro de 2020 - 18h02 - O ano da pandemia

Maravilhoso!
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