Lições da pandemia 2: Quando a Covid-19 atacou

Abro o jornal todos os dias à procura de notícias que amainem a ansiedade que desde o início do ano nos consome. Em 13 de março, começamos uma quarentena que se estende há nove meses. Durante seis meses não saí de casa para nada. Iam à rua por mim, para trazer comida, buscar o que quer que fosse que precisássemos. Seis meses depois, achei que poderia também ir à rua, uma vez que já havíamos aprendido os códigos de proteção, máscara, álcool gel, álcool líquido 70% para pulverizar depois que voltássemos para casa. E o que aconteceu? Covid. 

Quinze dias depois de ir à feira buscar frango, legumes e frutas e rever os amigos feirantes, passei o dia sentindo uma dor no corpo que só aumentava. Pensei até que fosse o sutiã me apertando demais e soltei a parte de trás. O tempo foi passando e a dor aumentando. À meia-noite, eu urrava de dor, nas costas, nos braços, no peito, nas pernas, e mal conseguia me mexer. Parecia que estava sendo esmigalhada, prensada por mãos enormes. Tive ânsia de vômito, fui ao banheiro, e nada. O jantar já havia sido digerido, não pus nada para fora. Voltei para o quarto e pedi que me apertassem onde doía, assim a dor passava. Foi passando, mas dormi gemendo de dor. Nunca senti uma dor dessas na vida. 

No dia seguinte, era como se tivesse sido atropelada por um caminhão. O corpo estava todo dolorido. Estávamos em 10 de setembro, e começamos a pensar quais as possibilidades de ser Covid o que eu estava sentindo. Eu não tinha percebido, mas uma ou duas semanas antes, meus olhos lacrimejavam numa conjuntivite branda. Lavei os olhos com soro fisiológico e melhorou. Achei que a culpa fosse da poeira do tapa-olhos que usei para dormir num dia que havia muita luz no corredor. Não era. 

Fui ao médico e ele mandou fazer o exame sorológico. Como eu não tinha condições de sair de casa andando, esperei mais de uma semana para ir ao médico. O exame deu positivo para Covid-19, apenas 1, ou seja, em cima do muro. Mas não havia sintomas suficientes para receitarem qualquer remédio. Esse foi o diagnóstico do médico. Tomografia limpa. Sem febre, sem tosse, sem mais nada, nem a dor que eu tinha sentido, ele me mandou para casa, como se eu estivesse já curada. Depois de 15 dias, acreditei que sim. Só que não. 

Um mês depois, outra crise de dor, só que desta vez, prolongada. Por 15 dias, precisei tomar analgésicos para cortar a dor, senão eu não conseguia fazer nada. Aí tive uma febre baixa, um pouco de tosse, além da dor persistente. Voltei no médico, que me disse que havia duas semanas que os casos de Covid haviam aumentado. Ele me receitou azitromicina, cinco compridos, por cinco dias. Foi o remédio que me reergueu. A partir dele, comecei a me sentir melhor. E me mandou fazer outro exame sorológico. Resultado: Covid, desta vez, 1,39, um contágio maior, mais anticorpos gerados. 

Foi infecção ou reinfecção? Não importa, eu sei que tive duas crises, duas vezes senti dores incríveis, sem poder me mover até a dor passar. Eu já tomava o analgésico de 8 em 8 horas para que a dor não voltasse. No final de outubro, eu estava me sentindo acabada. Nada fazia mais sentido. Nada do que eu fazia, ou tinha feito. Podia mandar tudo pro inferno que não faria diferença. 

Entre uma crise e outra, lancei um livro com minha Poesia Reunida. Sabe o que é juntar todos os poemas publicados ao longo de 40 anos num livro de quase 800 páginas? Mais de 1.000 poemas? Eu sei. Só que no pico da Covid, eu não queria nem me levantar mais da cama. Eu tinha planejado o lançamento, e não pude fazê-lo. Então resolvi vender o livro online, para os amigos mais próximos, aqueles que quisessem. E assim eu venci essa barreira. 

Quando a Covid voltou, eu ainda precisava continuar trabalhando. O mês de novembro eu passei gripada, mas não era uma gripe comum. Foi uma gripe tão forte, que eu não conseguia respirar por causa do nariz entupido. Mal conseguia dormir direito à noite. Chegou final de novembro. Comecei a me sentir mais inteira. Retomei o trabalho, todo atrasado. Os livros se acumulando, nove, dez, doze livros para serem feitos em poucos dias. Dezembro ainda não terminou e nem todos chegaram da gráfica. 

Este ano, fiz uns 22 livros, quando o normal seriam 30 ou 40. Não deixei de ter trabalho, mas entre setembro e novembro, eu não tinha forças para passar 12 horas no computador como eu costumava fazer todos os dias. Aí me dei conta do esforço que eu fazia sem sentir. Tive que me contentar em fazer apenas uma coisa de cada vez, até ganhar fôlego para fazer mais alguma coisa. 

Ainda estou pensando no que aprendi nesses últimos nove meses de pandemia. A quarentena foi extrapolada, mas a pandemia não passou. Estamos atravessando a segunda onda, com um novo crescimento de casos e mortes. O Brasil está à beira dos 200 mil mortos. Eram 100 mil em 8 de agosto. Mas agora a vacina chegou na Inglaterra, na Rússia, nos EUA. Continuamos esperando a vacina chegar aqui. São Paulo está se preparando para começar a vacinar no dia do aniversário da cidade, em 25 de janeiro. Vamos torcer para que isso aconteça. 

Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 2020 - 18h30

Thereza Christina Rocque da Motta 


 

     

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lições da pandemia 7: 300 mil mortes, 100 mil casos e 3.650 mortos num dia

Lições da pandemia 8: É preciso não aumentar os nomes dos mortos

Lições da pandemia 1: 100 mil mortos por Covid-19 no Brasil